Aos dezessete de outubro de mil novecentos e trinta e oito, segunda-feira, aqui cheguei às 7:30 hs vindo de Mariana. Sendo dia da festa de Santa Margarida Maria de Alacoque, celebrei às 8 hs a Santa Missa acolitado pelo sacristão Sr. José Vindelino da Silva e tomei posse da capelania do Santuário, para cuidar, como deseja o Exmo. e Revmo. Sr. Arcebispo Metropolitano Dom Elvécio Gomes de Oliveira, do culto do Segrado Coração de Jesus, na Arquidiocese por meio do Apostolado da Oração. Neste mesmo dia, comuniquei ao Revmo. Vigário Padre Marcelino Braglia, que me veio gentilmente visitar e escrevi ao Exmo. e Revmo. Sr. Arcebispo, no Espírito Santo, em preparativos para a Sagração do Sr. Bispo da Caratinga Dom João Batista Cavati. Escrevi igualmente a Exma. Sra. Da. Alice da Silveira Wigg, que foi a alma generosa que a esquissas suas construir este magnífico templo hoje Santuário Arquidiocesano.

                               Santuário do Sagrado Coração de Jesus de Burnier, 17 de outubro de 1938, festa de Santa Margarida Maria de Alacoque.

Cônego Rafael Arcanjo Coelho

Capelão do Santuário e Diretor arquidiocesano do Apostolado da Oração

 

 

 

Tocando para JK em Burnier

Ao sinal da batuta, o bombo avisou, o tarol respondeu e a banda detonou: “Saudades da Minha Terra”.

O dia 21 de abril de 1954 amanheceu igual a qualquer outro dia, em Burnier, município de Ouro Preto, no Estado de Minas Gerais. O céu de abril já estava arrefecendo o frio intenso daquela região destacando o Santuário Sagrado Coração de Jesus no alto da colina ao lado do seminário menor dos orionitas do mesmo nome.

O Santuário, bem como o seminário, foi doação de Dona Alice Wigg à Arquidiocese de Mariana para que seus seminaristas pudessem ter um lugar para passar as férias escolares. A majestosa construção em local privilegiado, dominando da colina toda Burnier, contrastava com a simplicidade e a pobreza do lugar.

O revestimento com mármore italiano de Carrara nos altares e balaustradas e os candelabros de ferro fundido artisticamente escolhidos, demonstravam o bom gosto de quem foi responsável pela arquitetura e decoração do templo.

As montanhas circundantes eram a principal razão da existência do povoado. De lá saiam, todos os dias, muitas toneladas de minério de ferro não inferiores a 75% de pureza, exploradas pela siderúrgica Usina Wigg.

A vegetação era extremamente pobre. Um capim rústico de estatura sempre uniforme, de um verde forte, não servia para outra coisa a não ser para cobrir as montanhas de minério. Nenhum animal pastava naqueles terrenos. Alias, não havia nenhum animal na região da usina. Exceto algumas árvores de eucalipto que, como intrometidas conseguiam crescer, não havia outra vegetação.

Se casualmente se visse algumas poucas árvores nas encostas das montanhas, podia se deduzir que entre elas corria um pequeno curso d’água que, pela correnteza importava um mínimo de húmus suficiente para germinar e alimentar estas árvores geralmente de pequena estatura e com pouca serventia.

A poucos metros do seminário, uma enorme tocha de fogo nunca parava de soltar suas labaredas, exceto na sexta feira da paixão. Não se sabe se por respeito à comemoração da morte de Cristo ou por simples superstição. A tocha era chaminé do alto-forno da Usina Wigg que derretia o minério que se transformava num melado amarelo incandescente que, depois de resfriado, se transformava em ferro-gusa.

Contavam os habitantes mais antigos que certa vez, um operador que deslizava um troley nos trilhos e depois basculava minério para dentro do forno, descuidando-se acabou caindo junto com o minério. Poucos segundos mais tarde só se viu uma fumacinha saindo do forno.

Nas poucas ruas do povoado circulavam dois caminhões, um Studbacker, um Ford americano. Não havia outros veículos exceto a caminhonete Ford 29 de Dona Alice dirigida pelo Sr. Joaquim, o seu motorista. Os demais eram caminhões basculantes transportando minério.

Além da Usina Wigg outra fonte de emprego em Burnier era a “Estrada de Ferro Central do Brasil”. Burnier, apesar de muito pequena, tinha uma posição estratégica. O grande pátio de manobra movimentava as composições que traziam os trens da bitola estreita do Rio de Janeiro, ou da zona da mata mineira de Belo Horizonte. Na estação de Burnier estes trens faziam baldeação com vagões indo para outras composições para seguir caminho.

Ainda não existia a BR 3 decantada por Toni Tornado num festival da canção e que se tornou depois a BR 040 como nome de Rodovia JK. A ligação entre Rio e Belo Horizonte era feita somente pela velha estrada da União Indústria. É por ela que transitavam os caminhões-cobra transportando óleo diesel e gasolina do Rio para Belo Horizonte, antes da construção da refinaria Gabriel Passos. Foi na União Indústria que pude ver passar o Chico Landi, o corredor de carro mais premiado do Brasil. Rodavam por esta estrada caminhões GMC, Mack, Studbacker, National, os Chevrolet e os Ford que ainda funcionavam com gasolina.

O dia 21 de abril era um dia igual aos outros para a maioria dos habitantes de Burnier, menos para nós seminaristas. É que naquele dia iria passar por Burnier, vindo de Belo Horizonte Juscelino Kubitscheck. O governador de Minas Gerais deveria fazer baldeação na estrada de Burnier para seguir para Ouro Preto. Ainda não existia estrada de rodagem de Belo Horizonte para Ouro Preto. Desde muitos anos Ouro Preto, nos dias 21 de abril, passa a ser capital simbólica de Minas Gerais. Para nós seminaristas, era uma ocasião rara para conhecer pessoalmente o governador tão famoso.

Nossa banda de música tinha ensaiado durante toda a semana para fazer bonito diante do governador. N’aquele 21 de abril de 1954, todos amanhecemos com muita emoção. Logo depois do café da manhã, começamos a descer a colina onde se localizava o seminário.

A pequena estrada assoalhada de minério de ferro era um perigo; podia-se escorregar com a maior facilidade. Se isto acontecesse, além de roupa suja do vermelho minério, tínhamos que ter cuidado com os instrumentos. Afinal de contas a roupa se lavava na água e sabão, mas os instrumentos tinham que ser levados para Belo Horizonte para serem consertados. Eu mantinha meu trombone na mão direita levantada nos trechos mais difíceis.

Vencida a descida, atravessávamos os trilhos até chegar à plataforma da estação bem antes da hora prevista. Afinal, não é verdade que mineiro não perde trem? Com tempo disponível, a titulo de aquecimento, tocamos três dobrados que seriam executados diante do governador. Por precaução, o maestro Pe. Borgognoni, recomendou que não nos afastássemos. Os olhos de todos estavam fixos na boca do túnel donde deveria aparecer o trem trazendo o governador, quando alguém gritou:

Oia! O trem ta chegano! Era o Zé Pequeno que, pequeno de estatura, era gigante no seu piston. Não sem motivo era o primeiro piston da banda.

A uma ordem do maestro todos nós nos perfilamos rapidamente e ficamos de prontidão aguardando a ordem do maestro. O trem, depois de um longo e forte apito, foi chegando de mansinho até soltar as ultimas descargas de vapor e parar definitivamente na plataforma bem perto de onde estávamos. Logo saiu do trem um oficial ajudante de ordens devidamente engalanado que se postou imediatamente ao lado da escada do vagão.

Logo pareceu o governador, vestido num guarda-pó bege e chapéu. Com o largo sorriso inconfundível fez uma saudação panorâmica, com ligeira vênia; a todos os presentes. Imediatamente, ao sinal da batuta, o bombo avisou, o tarol respondeu e a banda detonou “Saudade da Minha Terra”.

Logo depois de entregar o guará-pó ao ajudante de ordens, o governador cumprimentou o chefe da estação, todo solene no seu terno azul marinho, gravata preta, quepe do uniforme e os sapatos reluzentes. Caminhando elegantemente foi cumprimentando os que estavam no caminho até chegar ao estrado adrede preparado.

Logo que a banda terminou de executar o dobrado, a Dona Terezinha, a diretora da escola local, fez a saudação ao governador em nome da população. Quando a oradora terminou sua oração, a banda executou mais um dobrado. Em seguida, o governador tomou a palavra e discursou mostrando as dificuldades que enfrentara para estudar em diamantina e depois em Belo Horizonte nos incentivando a levar os estudos a sério.

Ao som do Cisne Branco, o governador foi se dirigindo ao vagão que o levaria a Ouro Preto que, a esta altura já estava pronto para partir. Já embarcado, foi se despedindo abanando as mãos enquanto o trem ia se deslocando repetindo o tradicional café-com-pão-manteiga-não. Nós continuamos por algum tempo olhando emocionados o trem que se afastava até que sumiu na curva da montanha.